“Não é teimosia, é rigidez cognitiva”: O que educadores e profissionais da saúde precisam entender 

Imagine uma criança de oito anos. Todas as manhãs, ela entra na sala de aula, coloca o estojo no mesmo canto da mesa, tira o caderno sempre da mesma forma e só começa a escrever quando todos os passos foram cumpridos. Um dia, ao chegar, encontra sua carteira ocupada. Ela paralisa, o rosto se fecha, e o que poderia parecer uma simples troca de lugar se transforma em um desafio imenso. Ela se recusa a sentar em outro local, chora ou até se isola. Para quem vê de fora, é fácil rotular esse comportamento como “birra”, “drama” ou “manipulação”. Mas esse olhar raso invisibiliza uma característica neurológica importante: a rigidez cognitiva. Neste artigo, vamos explicar o que é essa rigidez, como ela se manifesta em sala de aula, por que não é a mesma coisa no TEA e no TDAH, e o que educadores e profissionais da saúde podem — e devem — fazer a respeito. O que é, afinal, rigidez cognitiva? A rigidez cognitiva é a dificuldade de mudar pensamentos, comportamentos ou estratégias diante de novas situações. É como se a mente travasse em um único caminho possível e tivesse muita dificuldade em construir rotas alternativas. Em termos simples: não é que a pessoa “não queira” fazer diferente. É que ela não consegue, pelo menos não com a mesma naturalidade e agilidade que a maioria. Essa característica é muito comum no Transtorno do Espectro Autista (TEA), especialmente em níveis mais sutis (nível 1 de suporte), mas também pode estar presente em pessoas com TDAH, ansiedade, depressão, ou até em situações de trauma. E o impacto vai muito além das preferências por rotinas ou manias. Envolve sofrimento, frustrações intensas e um esforço diário para lidar com o imprevisível — que é, afinal, o que mais existe na vida escolar. Sala de aula: onde a rigidez encontra o imprevisível A escola é, por excelência, um espaço de transições: entre conteúdos, entre ambientes, entre atividades. Para quem tem rigidez cognitiva, cada transição pode parecer uma queda livre. Veja alguns comportamentos — nem sempre óbvios — que podem estar ligados à rigidez cognitiva: Um exemplo bastante comum: o professor ensina a estrutura de um trabalho escolar e pede que os alunos utilizem notas de rodapé. O aluno escuta, entende, mas simplesmente não segue a instrução. Quando questionado, responde algo como:“Não coloquei nota de rodapé porque tudo o que escrevi foi fruto do meu raciocínio e das leituras que já referenciei. Não havia nada extra para justificar como nota de rodapé.” Não é arrogância. É lógica rígida — uma interpretação literal e inquestionável do que faz sentido para ele. TEA e TDAH: a rigidez cognitiva pode parecer igual, mas não é Embora a rigidez cognitiva esteja presente tanto no autismo quanto no TDAH, ela se manifesta de formas diferentes — e isso importa na hora de intervir. No TEA: No TDAH: E o que fazer com isso? Nenhuma solução é mágica — e o papel do educador não é o de “corrigir” a rigidez cognitiva. Mas há caminhos de empatia, acolhimento e adaptação que fazem toda a diferença no cotidiano da escola. Para educadores: Para profissionais da saúde: Conclusão: quando o comportamento é só a ponta do iceberg Rigidez cognitiva não é frescura. Não é oposição. Não é preguiça. É uma forma de funcionamento do cérebro que exige compreensão, adaptação e paciência. A criança que se recusa a mudar de lugar. O adolescente que escreve da própria maneira, mesmo tendo recebido instruções diferentes. O aluno que trava diante de uma simples mudança no cronograma. Todos eles estão dizendo, à sua maneira, que mudar dói — às vezes, mais do que podemos imaginar. Como educadores e profissionais da saúde, nosso papel não é forçar a flexibilidade, mas construí-la com cuidado, respeitando os limites de cada um. Isso exige escuta, observação, colaboração entre escola e saúde — e, sobretudo, humanidade. Porque, no fim, ninguém aprende quando se sente atacado por ser quem é.