Números que explicam!

Há eventos na natureza que ocorrem de forma automática e independente, não necessitando de cuidados nem estímulos externos.

No cérebro humano, funções filogeneticamente primitivas, relacionadas diretamente com a manutenção da vida como respiração, batimentos cardíacos e pressão arterial, se comportam assim. Por outro lado, funções que nos diferenciam de outros animais e entre nós mesmos não se desenvolvem sem o cuidado e estímulos adequados nutridos pelo processo educacional e experiências vividas.

Da mesma forma que um recém-nascido privado de estímulo visual, após um período de tempo se torna definitivamente incapaz de enxergar, crianças que não recebem cuidados e estímulos adequados para seu desenvolvimento cognitivo e psicossocial não desenvolvem habilidades fundamentais para o seu funcionamento mental.

Nesse contexto, destacam-se as funções executivas (FE), um conjunto de habilidades mentais que regulam nosso comportamento e pensamento a partir de experiências vividas, com o objetivo de realizar ações no presente ou atingir metas futuras. O que significa dizer que dependemos dessas funções para quase tudo o que fazemos ou intencionamos fazer, seja para trocar de roupa, encontrar os amigos ou escrever um livro. Elas emergem nos primeiros anos de vida e se desenvolvem num ritmo muito forte até o início da vida adulta, no entanto, evidências atuais indicam que o período de maior resposta aos estímulos ocorre na infância e adolescência.

As FE permitem ações de antecipação, julgamento, autoconsciência, autocontrole, flexibilidade, tomada de decisões, resolução de problemas e adiamento de recompensas. Elas são mais importantes para o bom desempenho escolar do que a inteligência (QI) e são capazes de prever as competências em matemática e leitura ao longo de todos os anos escolares1. Significa dizer que crianças que na pré-escola já apresentam dificuldades nessas funções terão menor desempenho em leitura e matemática ao longo do Ensino Fundamental e Médio! Outros estudos comprovam que a estimulação precoce das FE promove o desempenho e a realização acadêmica ao longo dos anos escolares e que a ênfase apenas ao conteúdo, sem o devido treinamento das habilidades executivas responsáveis pela aquisição desse conteúdo, pode ser responsável pelo fracasso escolar de muitos alunos2,3.

Hoje contamos com pesquisas que acompanham indivíduos do nascimento até a vida adulta e que revelam que crianças com baixo autocontrole (menor perseverança, maior impulsividade e pobre atenção), aos 30 anos de idade apresentam pior saúde geral, menores salários, uso, abuso e dependência de drogas, e maior número de atos criminosos quando comparadas aos controles4, comprovando uma correlação direta entre FE e desfechos ao longo da vida como sucesso acadêmico, profissional, prosperidade, saúde física e mental.

Os estudos populacionais por nós conduzidos nesses últimos cinco anos, permitem estimar uma população de 10 milhões de crianças e adolescentes brasileiros com seu futuro comprometido pelo desenvolvimento inadequado de suas FE, limitando seu desempenho acadêmico, intelectual e social, e perpetuando as condições de pobreza de sua família, de sua comunidade e de todo o país 5.

Muito intrigante e reveladora é a correlação existente entre FE e classe econômica, saúde mental, desempenho escolar, metacognição, antecedentes pessoais, demografia e hábitos familiares e da criança.

Vejamos números que explicam e revelam alvos a serem contemplados pelas políticas públicas educacionais 5:

  1. Comparadas a crianças de classes A e B, as de classe D e E apresentam um risco 140% maior de baixo desempenho em FE, para as de classe C esse risco é 50% maior.
  2. Crianças com dificuldades de ajuste psicossocial (baixos índices de saúde mental) apresentam um risco onze vezes maior de dificuldades em FE. Em crianças com TDAH esse risco é 22 vezes maior!
  3. Crianças com desempenho escolar abaixo da média exibem um risco seis vezes maior de problemas com FE, para as medianas esse risco é três vezes maior.
  4. As dificuldades em FE acompanham as metacognitivas (estratégias para estudar, escutar, anotar, ler, compreender, redigir, pesquisar, se preparar e fazer provas). Crianças com a primeira condição apresentam um risco três vezes maior para a segunda.
  5. Nas crianças expostas ao tabaco durante a gestação o risco de disfunção executiva é duas vezes maior (=100%), ao álcool idem, baixo peso ao nascimento 60% e prematuridade 50% maior.
  6. Comparadas às crianças cujo chefe da família tem curso superior, as crianças em que o chefe é analfabeto apresentam um risco quatro vezes maior de baixas habilidades executivas, fundamental completo 2,4 e ensino médio incompleto 2,3.
  7. Crianças cujos pais são divorciados exibem um risco duas vezes maior de disfunção executiva, o mesmo risco de quando a família não toma nenhuma refeição junta (1,8)!
  8. Crianças cuja mãe ou o pai contam com menos de 1 hora por dia de tempo de dedicação exclusiva a ela, entram na estatística com um risco 130% maior de problemas de FE.
  9. Crianças cujos pais admitem que a casa é desorganizada incorrem num risco perto de cinco vezes de poucas habilidades executivas.
  10. E para encerrar, crianças que se deitam após a meia noite revelam um risco de 130% e as que dormem menos de 8 horas por noite 120% maior de problemas de FE.

Alguns desses fatores podem ser imediatamente modificados e outros dependem de políticas públicas de longo prazo, enquanto outros, infelizmente, mostram-se imutáveis. Resta aos pais, educadores e autoridades se conscientizarem da importância das FE no melhor desenvolvimento, aprendizado e comportamento da criança, bem como quais estratégias e intervenções baseadas em evidências científicas podem ser implementadas para alavancarmos essa geração que nos sucederá.

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  1. Diamond, A., Barnett, W. S., Thomas, J. & Munro, S. Preschool program improves cognitive control. Science 318, 1387-1388, doi:318/5855/1387 [pii]10.1126/science.1151148 (2007).
  2. Blair, C. & Diamond, A. Biological processes in prevention and intervention: the promotion of self-regulation as a means of preventing school failure. Dev Psychopathol 20, 899-911, doi:10.1017/S0954579408000436S0954579408000436 [pii] (2008).
  3. Diamond, A. & Lee, K. Interventions shown to aid executive function development in children 4 to 12 years old. Science 333, 959-964, doi:10.1126/science.1204529 (2011).
  4. Moffitt, T. E. et al. A gradient of childhood self-control predicts health, wealth, and public safety. Proc Natl Acad Sci U S A 108, 2693-2698, doi:10.1073/pnas.1010076108 (2011).
  5. Arruda, M. A., Mata, M. F. & Arruda, R. Executive functions, mental health and school performance in preadolescent children: a population-based study submitted (2015).

 

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