Apoio e estímulo de habilidades de Resiliência na criança e no adolescente

A Questão

A prosperidade futura de qualquer sociedade depende de um investimento contínuo no desenvolvimento saudável da próxima geração. A conexão bem documentada entre primeiras experiências adversas e uma ampla gama de problemas de custo, como menor rendimento escolar e as taxas mais elevadas de comportamento criminal e doenças crônicas, coloca em evidência a extensão em que a redução dos encargos de adversidade significativa sobre as famílias com crianças pequenas deve ser uma parte crítica do investimento. Dito isso, podemos observar que nem todas as crianças expostas a situações estressantes experimentam consequências danosas.

 Uma melhor compreensão de por que alguns fazem bem, apesar de sérias dificuldades poderia informar políticas e programas mais eficazes para fornecer suporte para as famílias e ajudar as crianças mais desfavorecidas a atingir seu pleno potencial.

Décadas de pesquisa em ciências sociais e comportamentais têm produzido uma base de conhecimento rica que explica por que algumas pessoas desenvolvem as capacidades de adaptação para superar a adversidade significativa e outros não. Se os encargos vêm das dificuldades da pobreza, dos desafios do abuso de substâncias parental ou de doença mental grave, das tensões da guerra, das ameaças de violência recorrente ou de negligência crônica, ou ainda de uma combinação de fatores, o único achado mais comum é que as crianças que acabam ficando bem  tiveram menos uma relação estável e comprometida com um pai de apoio, cuidador, ou outro adulto.

Essas relações fornecem a capacidade de resposta personalizada, apoio e proteção que amortecem as crianças de perturbações durante seu desenvolvimento. Elas também constroem capacidades-chave tais como a capacidade para planejar, monitorar e regular o comportamento, e adaptar-se às mudanças de circunstâncias - que permitem às crianças responderem à adversidade e prosperarem. Esta combinação de relações de apoio, habilidades de adaptabilidade e experiências positivas constituem as bases do que é geralmente chamado resiliência.

Descobertas recentes em biologia molecular, genômica e epigenética fornecem novos conhecimentos sobre como as relações de apoio desenvolvem as capacidades para lidar com a adversidade. Esta pesquisa está avançando rapidamente e demonstra que a resiliência é o resultado de interações múltiplas entre fatores de proteção no ambiente social e sistemas biológicos altamente responsivos. Estes resultados fornecem uma oportunidade para examinar como as políticas atuais e os programas poderiam ser aprimorados para produzir resultados de vida mais favoráveis para crianças desfavorecidas, tanto por reduzir a sua exposição a fontes de adversidade como para projetar formas melhores de construir suas habilidades de imitação e de adaptação.

A resposta a este desafio começa com a extensa evidência científica que afirma que o desenvolvimento da arquitetura do cérebro saudável é influenciado por consistentes interações de “servir e devolver” entre crianças e seus principais cuidadores.

Quando essas experiências são indisponíveis ou repetidamente interrompidas, o corpo percebe sua ausência como uma séria ameaça, e ativa seus sistemas de resposta ao estresse. Embora os efeitos imediatos da resposta ao estresse são protetores, sua ativação excessiva ou prolongada produz alterações fisiológicas que podem ter um efeito desgastante sobre o cérebro em desenvolvimento, sobre o sistema cardiovascular, a função imune, e os sistemas reguladores metabólicos. Deste modo, o estresse pode se tornar tóxico.

Em contraste, quando as interações responsivas com adultos cuidadores são prestadas e/ou restauradas, os sistemas de resposta ao estresse retornam as suas linhas de base normais, o cérebro em desenvolvimento e órgãos de outros sistemas em fase de amadurecimento são protegidos contra perturbações, e as crianças são ajudadas para desenvolver as habilidades necessárias para lidar com as adversidades. O resultado final destes efeitos protetores para o que poderia ter sido uma experiência de estresse tóxico para a criança torna-se o que chamamos "estresse tolerável.".

Uma maneira de entender o desenvolvimento da resiliência é visualizar como as experiências protetoras e as habilidades adaptativas são contrapesos de adversidades significativas e produzem uma saída positiva. Isto pode ser ilustrado através do conceito de balança ou, talvez, uma gangorra (ver caixa). Neste modelo, a resiliência é evidente quando a saúde da criança e o desenvolvimento estão inclinados na direção positiva, mesmo quando uma carga pesada de fatores negativos é empilhada por outro lado. Compreender todas as influências que podem fazer pender a balança na direção positiva é importante para conceber estratégias mais eficazes para a promoção de um desenvolvimento saudável diante da desvantagem significativa.

O que é resiliência?

Nas ciências sociais, comportamentais e biológicos, o termo resiliência é utilizado em uma variedade de formas e contextos, as vezes como uma característica individual, as vezes como um processo, e, outras vezes, como um resultado. Apesar destas diferenças, há um conjunto de regras comuns, definindo características de resiliência que ilustram a forma como o conceito tem sido utilizado em investigação e ciências da intervenção. Esses recursos incluem o seguinte:

  1. A capacidade de um sistema dinâmico se adaptar totalmente e com sucesso a distúrbios que ameaçam a sua função, viabilidade, ou desenvolvimento.
  2. A capacidade de evitar comportamentos deletérios e mudanças fisiológicas em resposta ao estresse crônico.
  3. Um processo para aproveitar os recursos para sustentar o bem-estar.
  4. A capacidade de retomar funcionamento positivo após as adversidades.
  5. A medida do grau de vulnerabilidade a choques e a perturbação.
  6. A capacidade da pessoa de se adaptar com sucesso a estresse agudo, trauma, ou formas mais crônicas de adversidade.
  7. O processo de adaptar-se bem diante a adversidade, trauma, tragédia, ameaças ou fontes significativas de stress.

Que seja considerado um resultado, um processo ou uma capacidade, a essência da resiliência é uma resposta positiva e adaptável a uma adversidade significativa. Não é nem um traço imutável nem um recurso que pode ser esgotado. Em um nível biológico, a resiliência resulta no desenvolvimento saudável porque protege o cérebro em desenvolvimento e os outros órgãos das rupturas produzidas pela ativação excessiva dos sistemas de resposta do estresse. Simplificando, a resiliência transforma estresse potencialmente tóxico em estresse tolerável. Na análise final, a resiliência está enraizada tanto na fisiologia de adaptação quanto nas experiências que nós fornecemos para as crianças, que fomentam ou limitam o seu desenvolvimento.

O que a ciência nos diz

Ao longo das últimas décadas, numerosos estudos longitudinais comprovam que o desenvolvimento infantil em condições de adversidade provoca respostas de estresse tóxico. O poder desta pesquisa reside na compilação de dados conjuntos e ricos dos mesmos indivíduos por um longo período de tempo, começando muitas vezes no nascimento ou até mesmo no período pré-natal e, em alguns casos, continuando até a idade adulta.

Muitos destes estudos têm identificado um subconjunto de crianças cujos resultados de vida eram notavelmente positivos apesar de sua exposição a uma variedade de experiências adversas que produzem tipicamente um aumento do risco de prejuízos na aprendizagem, no comportamento, e na saúde física e mental.

Adquirir uma maior compreensão de como e por que esses resultados inesperados acontecem está ajudando para construir uma ciência mais robusta sobre a resiliência. Esta ciência pode estimular uma nova reflexão sobre como melhorar as perspectivas de vida de todas as crianças, especialmente aquelas que vivem em ambientes que podem causar respostas ao estresse tóxico. Observações e provas descritas nas seções seguintes fornecem um forte primeiro passo em direção a alcançar esse objetivo.

Resiliência resulta de uma interação dinâmica entre predisposições internas e experiências externas.
Crianças que ficam bem diante da desvantagem significativa normalmente exibem tanto uma resistência intrínseca à adversidade quanto relações fortes com os adultos importantes em sua família e comunidade. Com efeito, é a interação entre biologia e ambiente que constrói as capacidades para lidar com a adversidade e superar ameaças para o desenvolvimento saudável.

A resiliência, portanto, é o resultado de uma combinação de fatores de proteção e nem características individuais nem ambientes sociais isolados são susceptíveis para gerar uma saída suficientemente positiva para as crianças que sofrem de períodos prolongados de estresse tóxico.

Inclinar a balança em direção a resultados positivos

O desenvolvimento da criança é como uma balança com dois lados. Experiências que podem resultar em estresse tóxico, tais como exposição crônica ou repetida a violência, a pobreza, ou a maus tratos, acumulam no lado negativo da escala. Influências positivas que podem ajudar a fazer um estresse significativo tolerável, tais como relações de apoio, oportunidades para a formação de habilidades, e praticar lidando com desafios gerenciáveis, inclinam a balança para o outro lado. Parte da razão para a variabilidade em como as crianças se desenvolvem é que suas balanças podem ser carregadas e inclinadas de maneiras diferentes. Mesmo sob condições altamente adversas, o desenvolvimento pode prosseguir de forma positiva se os pais e outros cuidadores fornecem uma consistente capacidade de resposta, e se as comunidades fornecem recursos e apoios que reforçam as capacidades das famílias e fazem um ambiente mais amplo de relações de proteção acessíveis para todas as crianças.

Há uma outra parte da balança que afeta a sua inclinação chamada fulcro (sustentáculo). Como acontece com qualquer dimensão ou gangorra, se um fulcro da criança é colocado mais perto de uma extremidade do que da outra, tornando mais difícil inclinar a escala naquela direção. Nesta representação, a colocação inicial do fulcro representa predisposições individuais, que podem variar de uma criança para outra. Estas variações de temperamento e habilidades inatas, que refletem diferenças genéticas subjacentes, demonstram que as crianças começam com seus fulcros em lugares diferentes ao longo da escala da balança. Esta colocação afeta a forma como elas respondem ao peso das experiências que elas têm: qualquer menor adversidade poderá inclinar a balança da criança em direção a resultados piores, de modo que, por exemplo, uma maior intervenção terapêutica seja necessária para fazer pender a balança em direção a resultados positivos.

Embora a colocação inicial do ponto de apoio tem um impacto no início da trajetória de desenvolvimento de uma criança, os progressos da ciência estão agora nos mostrando que a posição do ponto de apoio não é fixa. Pelo contrário, os impactos cumulativos de experiências de vida que inclinam a balança em qualquer direção podem, também, mudar a localização do ponto de apoio ao longo do tempo.

Dizendo de outra forma, a acumulação contínua de experiências positivas e negativas ao longo do tempo, na verdade, influencia a constituição física e mental da criança e assim, tem o poder para deslizar o fulcro.

Uma maneira para movimentar ativamente o fulcro para uma posição que faz com que a balança tenha maior capacidade de suportar o peso de experiências negativas é construir as capacidades necessárias para gerir o estresse. Estas incluem a capacidade de focar a atenção, de resolver problemas, de planejar com antecedência, de ajustar-se a novas circunstâncias, de regular o comportamento, e de controlar os impulsos. Essas habilidades, muitas dos quais se enquadram dentro do que é chamado de função executiva e de autorregulação, constituem importantes blocos de construção para lidar com a adversidade, e o domínio dessas habilidades pode reposicionar positivamente o fulcro. É importante notar que a posição do fulcro nunca é completamente bloqueada. No entanto, a capacidade do cérebro de mudar decresce com a idade, tornando-o mais difícil de mudar a localização do ponto de apoio conforme as crianças ficam mais velhas.

Quando experiências positivas superam as experiências negativas, a "escala" de uma criança se inclina em direção a resultados positivos.

A resiliência é vista em como o cérebro, o sistema imune e os genes respondem às experiências durante o desenvolvimento. Uma compreensão mais profunda de como e por que algumas crianças têm resultados inesperadamente positivos apesar da adversidade está começando a emergir enquanto novas descobertas científicas estão iluminando a complexa interação entre as diferenças genéticas, o desenvolvimento de circuitos do cérebro, e a capacidade de resposta imunológica, os quais interagem com o ambiente de cuidado e o contexto social.

  • A expressão gênica: Dada a evidência extensa de que praticamente todos os aspectos do desenvolvimento e da saúde são afetados pela interação entre genes e experiência, 12 cientistas começaram a identificar os fatores biológicos específicos (incluindo variações na sequência de genes, na expressão gênica e nos mecanismos neurais) que trabalham juntamente com os aspectos do ambiente social para gerar resultados positivos. Por exemplo, certas variantes genéticas resultam na produção de proteínas no cérebro que controlam a resposta ao estresse crónico, exagerando ou neutralizando os efeitos negativos da exposição à adversidade.

As diferenças biológicas também controlam a sensibilidade dos genes à influências ambientais, o que leva a diferentes maneiras em que os indivíduos respondem a experiências de estresse. Certas variações genéticas também parecem realçar os efeitos benéficos de uma intervenção de proteção, fazendo alguns indivíduos mais propensos a prosperar em resposta a ambientes de apoio.

Função cerebral: Variação na ativação de substâncias químicas do cérebro, como a ocitocina e a vasopressina, está relacionada com a capacidade de iniciar e manter o comportamento social, construir apego com os outros e controlar a ansiedade social ao longo da vida. Diferenças funcionais nos circuitos de medo e recompensa do cérebro também podem ser responsáveis por traços de construção de capacidades como o otimismo ou regulação das emoções. Muitas dessas diferenças têm raízes na forma como as primeiras experiências afetam o desenvolvimento do cérebro. Por exemplo, situações de ameaça liberam uma série de hormônios do estresse Certas combinações desses hormônios melhoram a função cerebral após estresses leves a moderados, mas suprimem esta função após o estresse agudo. Tensão constante pode alterar o tamanho e o número de conexões neurais em certas partes do cérebro. Quando o perigo passa, um saudável cérebro resiliente pode se recuperar destas mudanças, mas experiências de adversidade no início da vida podem alterar essa capacidade de recuperação. Além disso, o estresse crônico acionado pela adversidade precoce pode causar mudanças de longo prazo em regiões do cérebro que regulam o controle do comportamento e bem-estar emocional. Essas mudanças limitam a capacidade do cérebro de responder adequadamente a situações desafiadoras ou ameaçadoras, predispondo os indivíduos para o desenvolvimento de depressão, transtornos de ansiedade, abuso de substâncias e doenças cardiovasculares na vida adulta.

Respostas imunitárias relacionadas: a ação do sistema imunológico sobre a química cerebral também é regulada por fatores genéticos e ambientais. A inflamação, que é um mecanismo fisiológico de autoproteção em curto prazo, é uma seria ameaça se ativada cronicamente. Com efeito, a inflamação crônica pode conduzir a uma variedade de doenças, incluindo diabetes, doença cardiovascular, artrite, câncer, demência, e depressão. Dada a centralidade da inflamação a múltiplas doenças, o fato de que a adversidade durante a infância está associada a respostas inflamatórias elevadas sugere que o estresse tóxico aumenta a probabilidade de deficiências de saúde ao longo da vida. Por exemplo, a experiência de abuso e negligência aumenta a produção de citocinas pró-inflamatórias, que são um marcador precoce de maior risco para a doença cardíaca.

A habilidade do corpo para restaurar o equilíbrio entre citocinas pró e anti-inflamatórias, na sequência de uma experiência de indução de estresse pode, portanto, ser considerada um indicador biológico de resiliência. A evidência científica também vem demonstrando que diferenças nos tipos e quantidades de micróbios (bactérias e vírus)  aos quais crianças e jovens estão expostos podem afetar a capacidade de resposta e a capacidade de adaptação do sistema imunitário aos desafios ambientais posteriores.

Experiências e habilidades de enfrentamento constroem resistência à adversidade. Quando experimentamos algo estressante, sistemas de resposta ao estresse do nosso corpo são ativados. A resposta ao stress fisiológico saudável é caracterizada por um aumento acentuado seguido por uma rápida diminuição da ativação. Quando o sistema é resiliente, adapta-se ao longo do tempo (representado acima em azul), levando à menor ativação a cada vez que um estressor semelhante é experimentado. Mas quando a resposta ao estresse não é ativada da maneira que deveria, não consegue se desligar quando a experiência estressante termina ou deixa de reconhecer e adaptar-se ao mesmo tipo de estressor ao longo do tempo, sabemos que ela não está funcionando corretamente. Neste último caso (representado acima em vermelho), a mesma resposta fisiológica é desencadeada repetidamente sem nenhum sinal de adaptação. Quando isso acontece, pode perturbar o equilíbrio químico do corpo e mudar a arquitetura de regiões específicas do cérebro em desenvolvimento. Adotando habilidades de enfrentamento baseada em experiências, um cérebro resiliente adapta-se a semelhantes tipos  de estressores que não ameaçam a vida, adoptando habilidades de enfrentamento com base na experiência. Como resultado, o sistema de resposta ao estresse "aprende"  a ativar-se de forma mais moderada (McEwen, 1998).

Várias linhas de investigação identificaram um conjunto comum de fatores que predispõem as crianças a resultados positivos em face da adversidade significativa. Estes fatores abrangem os pontos fortes que derivam da criança, as relações familiares, colegas e adultos, e os ambientes sociais mais amplos que constroem e apoiam arquitetura cerebral resistente. Quando essas influências positivas estão funcionando de forma eficaz, elas "empilham na balança", com peso positivo e otimizam a resiliência. Quando esses fatores positivos estão ausentes, interrompidos ou prejudicados, há pouco para contra balançar os efeitos negativos da adversidade significativa, criando assim as condições para maus resultados e as perspectivas de vida diminuem. Estes fatores de reequilíbrio incluem os seguintes:

  • A disponibilidade de pelo menos um relacionamento estável, atencioso e compreensivo entre a criança e os adultos importantes em sua vida. Estes relacionamentos começam na família, mas eles também podem incluir vizinhos, prestadores de primeiros cuidados e de educação, professores, assistentes sociais, ou treinadores, entre muitos outros.
  • Ajudar as crianças a construir um senso de domínio sobre as suas circunstâncias de vida. Aqueles que acreditam em sua própria capacidade de superar dificuldades e orientar o seu próprio destino são muito mais propensos a uma adaptação positiva à adversidade.
  • Crianças que desenvolvem fortes habilidades de função executiva e de autorregulação. Essas habilidades permitem aos indivíduos gerir seu próprio comportamento e as emoções, e desenvolver e executar estratégias adaptativas para lidar eficazmente com circunstâncias difíceis.
  • O contexto de apoio de afirmar a fé ou tradições culturais. As crianças que estão solidamente fundamentadas dentro de tais tradições são mais propensas a responder de forma eficaz quando desafiadas por um evento muito estressante ou uma experiência gravemente perturbadora.

Aprender a lidar com ameaças manejáveis para o nosso bem-estar físico e social é fundamental para o desenvolvimento da resiliência. Nem todo estresse é nocivo; todas as crianças experimentam diferentes graus de estresse no curso de suas vidas do dia-a-dia. Desde impactos de infecções ou abrasões menores, que desencadeiam reações imunológicas que ativam a resposta do corpo ao estresse, até ameaça de exclusão social, reprovar em uma prova, ou  errar  uma fala em uma peça teatral, existem numerosas oportunidades na vida de cada criança para experimentar estresse manejável , e com a ajuda dos adultos de apoio este "estresse positivo" pode ser promotor do desenvolvimento. Ao longo do tempo,  nosso corpo e nosso cérebro começam a perceber esses tipos de ameaças como cada vez mais gerenciável e nos tornamos mais capazes de lidar com os obstáculos da vida e dificuldades, físicas e mentais.

Uma técnica promissora para o reforço da capacidade de adaptação é através do desenvolvimento de competências explícitas e capacidades que suportam flexibilidade cognitiva, definição de metas, resolução de problemas, bem como a capacidade de resistir ao comportamento impulsivo.

Muitas dessas habilidades caem nos domínios da função executiva e de autorregulação, e têm uma trajetória longa do desenvolvimento que começa na infância e não amadurece completamente até a idade de 25 a 30 anos. Assim como estas capacidades servem como fatores de proteção para as crianças (ver acima), elas também são recursos extremamente importantes para os adultos que cuidam delas e podem ser reforçadas através de treinamento e prática.

Algumas crianças demonstram maior sensibilidade para ambas as experiências negativas e positivas. Um corpo crescente de evidências mostra que algumas crianças apresentam respostas biológicas mais extremas a contextos sociais de todos os tipos do que outras crianças. Estes indivíduos altamente sensíveis apresentam maior vulnerabilidade em circunstâncias estressantes, mas respondem de maneira excepcionalmente positivas em condições favoráveis. Biologicamente crianças sensíveis são mais sensíveis aos ambientes positivos que fornecem intervenções parentais de afeto e suporte, e facilmente sobrecarregadas em contextos de cuidado estressantes que estão sobrecarregados por conflito conjugal, adversidades familiares em geral, e transtornos psiquiátricos dos pais, como a depressão.

Esta suscetibilidade às consequências das adversidades também tem sido ligada a taxas mais elevadas de doenças respiratórias, bem como a depressão e problemas de comportamento.

A resiliência pode ser uma situação específica. Pesquisas mostram que as diferenças que protegem algumas crianças diante determinada forma de adversidade pode ter pouco ou nenhum efeito em outras condições. Por exemplo, algumas crianças podem demonstrar resiliência para ser intimidado na escola, mas não para assistir conflito parental. Outros podem demonstrar resiliência em conseguir alguns tipos de resultados positivos (por exemplo, o desempenho acadêmico), mas não outros (por exemplo, risco de doença relacionada com o stress). Em suma, a resiliência é muitas vezes uma situação específica, ao invés de uma característica geral que se aplica em todos os contextos.

Como os indivíduos respondem a experiências estressantes varia dramaticamente, mas adversidade extrema quase sempre gera problemas graves que requerem tratamento. A maioria das crianças não experimentam os fatores de estresse crônicos imprevisíveis e incontroláveis que podem levar a consequências negativas ao longo da vida. No entanto, as crianças que experimentam situações de ameaça ou catástrofe de magnitude histórica, tais como genocídio, fome, ou a devastação ambiental, quase sempre apresentam a curto e/ou longo prazo, impedimentos em sua saúde e desenvolvimento.

Por exemplo, crianças que sobreviveram ao Holocausto durante a Segunda Guerra Mundial, muitas das quais com uma notável resiliência diante das atrocidades vividas, declararam a persistência de sintomas psiquiátricos residuais na vida adulta. Independentemente dos pontos fortes constitucionais ou da disponibilidade de relações de apoio que ajudam a construir habilidades para lidar com uma ampla gama de desafios e ameaças, extremas adversidades raramente podem ser resistidas sem danos. Nessas condições, as intervenções terapêuticas intensivas adaptadas aos indivíduos e contextos são muitas vezes necessárias.

Algumas crianças são mais afetadas por ambas as experiências positivas e negativas

Cada criança tem um nível diferente de reatividade fisiológica – o grau em que seus sistemas biológicos ativam uma resposta a um evento externo. Neste estudo, as crianças que têm maior reatividade (linha azul escura) apresentaram mais problemas de comportamento quando eles viviam em um ambiente com conflitos significativos do que seus pares menos reativos (linha azul clara). No entanto, em um ambiente de baixo conflito, as crianças altamente reativas responderam com muito menos problemas de comportamento do que suas contrapartes. Comportamentos incluem comportamentos desafiadores de oposição (raiva, ressentimento, briga), problemas de conduta (trair, vandalizar, ameaçar) e comportamentos de hostilidade aberta (luta, chutes, insultos) (Obradovi´c, et al. 2011).

Fatos sobre a resiliência que são muitas vezes mal compreendidos

Os cientistas estudaram o fenômeno da resiliência em uma ampla gama de circunstâncias perigosas, incluindo a pobreza, grave psicopatologia parental, as condições de ameaça por motivos raciais, assistência institucional, exposições à violência e à guerra, e do Holocausto durante a Segunda Guerra Mundial. Resultados consistentes desta extensa base de conhecimento fornecem uma oportunidade para esclarecer as coisas sobre várias hipóteses amplamente acreditadas, mas incorretas sobre os indivíduos que enfrentam as probabilidades diante de graves dificuldades.

A resiliência requer relacionamentos, não individualismo inflexível. Não existe um "gene resiliência" que determina o curso da vida de um indivíduo, independentemente das experiências que moldam a expressão genética. A capacidade de se adaptar e prosperar apesar da adversidade se desenvolve através da interação de relações de apoio, expressão do gene, e sistemas biológicos adaptativos. Apesar da convicção generalizada de que a determinação individual, uma extraordinária autossuficiência, ou alguma inata força heroica de caráter pode triunfar sobre a calamidade, a ciência agora nos diz que é a presença confiável de pelo menos uma relação de suporte e múltiplas oportunidades para o desenvolvimento de habilidades de enfrentamento eficazes é que são os elementos essenciais para a capacidade de fazer o bem diante da adversidade significativa.

Os recursos que sustentam a resiliência podem ser reforçados em qualquer idade. Um número crescente de evidências mostra que as habilidades de enfrentamento que suportam uma adaptação eficaz diante da adversidade são construídas através de um processo de desenvolvimento que ocorre ao longo de um período prolongado de tempo, desde a infância até a adolescência e na idade adulta. Atividades apropriadas à idade que conferem benefícios à saúde generalizados (para o cérebro, bem como para o resto do corpo) são bastante promissoras para melhorar as chances de que um indivíduo possa se recuperar de experiências estressantes. Por exemplo, cada vez mais evidências sugerem que as práticas regulares de exercícios físicos e atividade de redução do estresse (tais como meditação da atenção plena) em todas as idades podem alterar a estrutura e a função do cérebro, enquanto também reduzem a expressão de genes pró-inflamatórios. Programas que constroem ativamente habilidades para o planejamento, organização, controle de impulsos, flexibilidade cognitiva e outras funções executivas também podem melhorar as habilidades de adultos com educação limitada e baixa renda para lidar, se adaptar, e até mesmo prevenir adversidades em suas vidas e na vida de seus filhos.

Indivíduos que demonstram resiliência em resposta a uma forma de adversidade não necessariamente fazem isso em resposta a outra.
A resiliência é formada pelo acúmulo de experiências, boas e más e o contínuo desenvolvimento das habilidades de enfrentamento adaptativas que estão em sintonia com essas experiências. O cérebro e outros sistemas biológicos são mais adaptáveis no início da vida, e o desenvolvimento que ocorre nos primeiros anos de vida é a base para uma ampla gama de comportamentos resilientes. Como os indivíduos se desenvolvem ao longo do tempo, eles nunca perdem completamente sua capacidade de aperfeiçoar essas habilidades, mas muitas vezes eles devem aprender a se adaptar a novos desafios. No entanto, quando as experiências adversas são extremas ou cataclísmicas, é provável que mesmo o indivíduo mais resistente precise de suporte terapêutico em algum ponto. Simplificando, a resiliência diante da algumas dificuldades não garante resistência em face de todas as circunstâncias ameaçadoras.

A lacuna da ciência-política

Quando a superação dos conflitos é erroneamente vista como simplesmente uma questão de motivação individual ou coragem, a falta de sucesso é percebida como a culpa do indivíduo, e "culpar a vítima" se torna a resposta mais frequente.

Muitas políticas sociais econômicas, de educação e da saúde que abordam os efeitos da adversidade em indivíduos fazem pouco para criar as condições que são conhecidas para construir uma maior resiliência. Os exemplos seguintes ilustram a extensão em que muitas políticas públicas ainda não refletem a compreensão científica de como as capacidades que suportam resiliência se desenvolvem.

Quando as políticas de bem-estar da criança se concentram exclusivamente na remoção de uma criança de um ambiente que é fisicamente inseguro, eles perdem a oportunidade de restaurar as relações e desenvolver as capacidades que são a base da resiliência. A remoção do perigo sem também o fortalecimento de relações de apoio e o fornecimento de serviços terapêuticos não oferece as experiências de cura necessárias para contrabalancear os efeitos negativos de maus-tratos e mover em direção a resultados positivos. A ciência da resiliência exige uma mudança fundamental: em vez de se concentrar exclusivamente na proteção contra perigo iminente, é importante a adoção de um método de fortalecimento que promova as capacidades de adaptação que facilitam o desenvolvimento saudável.

Quando as políticas de redução da pobreza exigem que os pais trabalhem sem garantir o acesso as estruturas de acolhimento de crianças de alta qualidade eles perdem a oportunidade de promover tanto a autossuficiência econômica do adulto quanto experiências de desenvolvimento favoráveis para os seus filhos.

A falta de investimento em modernos programas de cuidados na primeira infância e de educação para os filhos dos pais com baixa renda e que trabalham, reflete uma incompreensão fundamental de como as fundações de resiliência são construídas no início da vida. Décadas de pesquisa sobre o desenvolvimento infantil sugerem que os programas que facilitam relações adulto-criança positivas e estáveis, tanto em casa e nas configurações não parentais em que as crianças gastam uma quantidade significativa de tempo, são susceptíveis a reduzir a transmissão inter geracional de dependência econômica e de desvantagem social. Por outro lado, as políticas que negligenciam as necessidades básicas das crianças vulneráveis perdem oportunidades críticas que podem "inclinar a escala" em uma direção mais positiva e promover uma vida de benefícios para o indivíduo e a sociedade das gerações futuras.

Quando os programas usam modelos "educação de caráter" em contextos para os quais não foram projetados, eles perdem o poder de criar ambientes favoráveis, promotores do crescimento, que constroem competências generalizáveis através de contextos.

Traços de caráter socialmente desejáveis exigem uma base de competências subjacentes e capacidades que incluem funções de autorregulação e de execução, tais como controle inibitório, planejamento e flexibilidade cognitiva. Assim, os programas que foram projetados para "construir o caráter" em um contexto onde as crianças já têm essas habilidades subjacentes, como escolas com bom desempenho, não vão necessariamente se transferir com sucesso para o contexto diferente da maioria das escolas com baixos resultados.

Nestes últimos casos, onde as crianças não tiveram as experiências necessárias para desenvolver as mesmas capacidades fundamentais, a equipe do programa deve trabalhar na construção de relacionamentos de apoio e capacidade de adaptação que podem ser aplicados em vários contextos antes de introduzir programas convencionais de "educação do caráter".

Direções futuras para Políticas e Programas

Avanços na ciência do desenvolvimento humano e sua biologia subjacente podem ser mobilizados para informar uma nova onda de estratégias inovadoras para a construção das capacidades que ajudam crianças e adultos a prosperarem diante da desvantagem econômica e social. Novas abordagens promissoras incluem ambas as ações públicas e privadas que podem fortalecer os fundamentos da resiliência, a partir dos primeiros anos de vida e continuando na idade adulta.

 Utilizar o conhecimento científico para ajudar a identificar e apoiar as crianças, cujas necessidades não estão sendo tratadas de forma adequada pelos serviços existentes. As diferenças individuais na resiliência e vulnerabilidade entre crianças que enfrentam adversidades significativas apresentam importantes desafios não atendidos por programas de intervenção que têm sido desenvolvidos como um modelo de prestação de serviços "bom para todos".

Baseando-se em novos conhecimentos da medicina do século XXI, da biologia molecular e da genética, bem como os avanços nas ciências sociais, os pesquisadores estão começando a identificar padrões interessantes de impacto diferenciado e novas formas de medir os efeitos das adversidades variáveis que podem reforçar a nossa capacidade para coincidir com intervenções específicas para os recursos distintivos e as necessidades dos diferentes subgrupos de crianças e famílias. Essas fronteiras da investigação científica que se deslocam rapidamente poderiam ser mobilizadas para desenvolver, testar e escalar novas formas de individualização de serviços para as crianças, que são mais propensas a apresentar resistência em situações severamente desafiadoras e aqueles que precisam de maior assistência.

Melhore as interações "dar e receber" entre os bebês que vivem em ambientes desfavorecidos e os adultos que cuidam deles, a fim de fortalecer os blocos de construção da resiliência.

A capacidade de responder aos desafios da vida de uma maneira positiva, adaptável está enraizada na qualidade das relações que as crianças têm com os seus cuidadores primários e outras pessoas importantes em suas vidas. A importância desta influência emerge diretamente de uma compreensão de quanto a capacidade de resposta “dar e receber” facilita o desenvolvimento cognitivo, social e  emocional. Estas capacidades de crescimento são então disponíveis para ajudar a criança a lidar com as dificuldades e se adaptar a situações desafiadoras. O conhecimento e as habilidades dos pais, professores e cuidadores influenciam grandemente a capacidade de resposta das suas interações com as crianças.

Reconhecer o papel fundamental destes recursos interativos fornece um forte incentivo para o desenvolvimento de novas estratégias de intervenção que visam explicitamente à construção de competências dos adultos para melhorar a qualidade da relação adulto-criança, a fim de melhorar a vida das crianças vulneráveis.

Colocar em alvo o desenvolvimento de competências específicas que são necessárias para estratégias adaptativas, como a tomada de decisão e a autorregulação eficaz em crianças e adultos. As intervenções para ajudar as pessoas a lidar com experiências estressantes são propensas a serem mais eficazes se focarem em habilidades que podem ser usadas em uma variedade de circunstâncias e papéis, seja como alunos, pais, candidatos a emprego ou membros da comunidade. Muitas dessas capacidades essenciais caem nos domínios da função executiva e de autorregulação, que podem ser construídas por meio de programas que se concentram explicitamente no seu desenvolvimento, começando na primeira infância, e fortalecidas na vida adulta por meio de serviços que fornecem coaching, apoio e práticas adequadas.

Uma vasta gama de cuidados e educação da primeira infância, formação dos pais, e programas de preparação de emprego poderia se beneficiar com uma maior compreensão científica de como essas habilidades se desenvolvem desde a primeira infância até a idade adulta.

Desenvolver novos quadros para a integração de políticas e programas em todos os setores que reduzam coletivamente adversidades e constroem capacidades. Algumas fontes de adversidade significativa estão fora do controle, tais como desastres naturais, a morte da pessoa amada, e doenças graves, porém, muitas dificuldades  encontradas pelas crianças e seus pais são evitáveis. Acionadores comuns de estresse tóxico em famílias e comunidades incluem negligência grave, abuso recorrente, desnutrição, ambientes caóticos, e má gestão da saúde.

Estratégias que constroem capacidades de crianças e adultos funcionam melhor quando estão integradas nas políticas complementares em todos os setores que reduzem coletivamente a carga de estresse sobre as famílias, devido às ameaças frequentemente inter-relacionadas à pobreza, crime, doença mental, abuso de drogas, discriminação e violência na comunidade.

Novas abordagens promissoras podem fortalecer os fundamentos da resiliência, a partir dos primeiros anos de vida e continuando na idade adulta.

A nova abordagem que utiliza uma estrutura unificada, baseada na ciência, conseguiu identificar as melhores estratégias para implementação de parcerias públicas e privadas coordenadas. Poderão incluir políticas de licença parental subsidiadas, o acesso a estruturas de cuidados e de alta qualidade e serviços de educação, recreação comunitária, atividades de apoio e programas de visitas domiciliares que apoiam novos pais sobre a forma de interagir positivamente com seus filhos.

A seguir estão alguns dos muitos exemplos de como as políticas e programas em curso poderiam construir os fundamentos da resiliência em crianças de forma mais eficaz.

  • Requisitos do Trabalho para receber ajuda em dinheiro através da Assistência Temporária para Famílias Carentes (TANF) poderiam ser ligados diretamente à disponibilidade de serviços de cuidados infantis de alta qualidade.
  • Políticas de bem-estar da criança poderiam trabalhar com as famílias para reduzir as fontes de estresse crônico em suas vidas e prestar serviços terapêuticos para o fortalecimento de relações vulneráveis antes que a remoção das crianças seja necessária.
  • Ambientes escolares formais podem fornecer uma gama de oportunidades para a participação significativa participação e pertencimento, bem como para o desenvolvimento de conhecimentos, habilidades cognitivas e habilidades de autorregulação, os quais aumentam sistemas adaptativos que são a base da capacidade de lidar com a adversidade.

A inovação produtiva é susceptível de ter seu maior impacto quando os programas baseados na família são destinadas a complementar programas de professor-aluno com um objetivo comum de garantir relações de apoio e cuidado, bem como a construção de habilidades na criança. Programas baseados na escola que se concentram explicitamente em melhorar as habilidades das funções executivas das crianças e as intervenções preventivas que promovam uma relação segura para crianças que vivem onde há risco de maus-tratos, são exemplos promissores de aplicação de tal conhecimento.

Finalmente, maximizar a eficácia final de todas as políticas e programas para a primeira infância, concentrando-se coletivamente em toda a gama de fatores que facilitam a resiliência. Extensas provas recolhidas ao longo de décadas de pesquisa apontam em direção à poderosa influência de uma composição de fatores pessoais, relacionais e contextuais que estão associados a resultados positivos diante da adversidade.

Com base neste conhecimento poderoso, todos os programas de prevenção e intervenção se beneficiariam focalizando em combinações dos seguintes fatores: facilitar as relações adulto-criança favoráveis; a construção de um senso de autossuficiência e controle percebido; proporcionar oportunidades para fortalecer habilidades adaptativas e capacidades de autorregulação; e mobilizar fontes da fé, esperança e tradições culturais.

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