10 milhões de crianças!

No Brasil*, mais de 10 milhões de crianças e adolescentes têm seu futuro comprometido pelo desenvolvimento inadequado de suas habilidades cognitivas, limitando seu desempenho acadêmico, intelectual e social, perpetuando as condições de pobreza de sua família, de sua comunidade e de todo o país. Reduzir a pobreza é fundamental e prioritário, mas não pode ser a única ação. Onde mais atuar?

Comecemos por números que não frequentam as mídias, números cansados de gritar e não serem ouvidos, explicarem e não serem consultados, apenas números insones, enclausurados em prateleiras e armários empoeirados da Ciência, porque Ciência nesse país, historicamente, nunca esteve na agenda dos governantes e legisladores ao criarem planos e tomarem decisões na área de Educação.

Nesse país vivem 61 milhões de crianças e adolescentes, 18 milhões delas com alguma dificuldade de ajuste psicossocial, 22 milhões com sintomas emocionais e 19 milhões com problemas de conduta. Essas dificuldades provocam prejuízos na vida familiar, social e/ou acadêmica de cerca de 13% delas (8 milhões), com consequente alto risco de já serem portadoras ou virem a apresentar transtornos mentais. Esse percentual tem correlação indireta com o grau de desenvolvimento da nação, sendo de 15% em países como a Índia e 7% na Noruega.

Apesar de todo amor maternal, 14% das mães fumaram e 7% ingeriram bebida alcoólica durante a gestação de seus filhos, certamente por ignorarem os malefícios do álcool e do tabaco na formação do cérebro fetal e, consequentemente, sobre a saúde mental e desempenho escolar ao longo da infância e adolescência. Apenas 1,7% delas têm curso superior e 9,5% são analfabetas ou não completaram o primário.

Mais de 10 milhões dessas crianças e adolescentes apresentam dificuldades de funções executivas, sejam quentes (regulação emocional e inibição comportamental) ou frias (objetivar, planejar, organizar, focar, iniciar, perseverar, automonitorar, flexibilizar e operacionalizar) e metacognitivas (estratégias para estudar, ler, compreender, redigir, pesquisar, se organizar, se preparar e fazer provas).

O Projeto Atenção Brasil que conduzimos em 2010, avaliou oito mil crianças e adolescentes em 17 estados e 87 cidades brasileiras e revelou números alarmantes em saúde mental e desempenho escolar (vide a “Cartilha do Educador, educando com a ajuda das Neurociências”, download gratuito em www.aprendercrianca.com.br). Agora mais números de extrema importância estão sendo extraídos do “Projeto Escola da Diversidade, decifrando códigos da Educação”, em campo com 4 mil crianças do ensino público municipal em São Sebastião do Paraíso (MG).

Ao final desses cinco anos de estudo estamos conseguindo montar parte desse quebra cabeças onde aspectos demográficos, socioeconômicos e educacionais interferem em características de ajuste psicossocial, funções executivas e metacognitivas, determinando, em última análise, desenvolvimento, saúde mental e desempenho escolar da criança.

Nossas políticas públicas na área da Educação nunca contemplaram esse racional. Como metáfora, podemos dizer que sempre se preocuparam apenas com o combustível do carro, nunca com a capacitação do motorista, o bom funcionamento do motor, a calibração dos pneus, o ajuste dos retrovisores, etc... Para o processamento adequado e de alto rendimento da informação é fundamental o bom desempenho das ferramentas mentais que vão processar essa informação.

Identificar essas correlações, sua direcionalidade, bem como seus fatores de risco e proteção, pavimenta políticas públicas e intervenções de reabilitação, estimulação e prevenção em grupos de risco, capazes de colocar nossas crianças, definitivamente o maior patrimônio desse país, na vanguarda mundial da Educação e saúde mental.

Queremos viver esse dia ou pelo menos saber sua opinião!

Venha para o brain4child.

*Executive functions, mental health and school performance in preadolescent children: a population-based study. Arruda, MA; Mata, MF; Arruda, R. 2015. Submitted.

 

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