Timidez e Fobia Social na Infância e Adolescência

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Inibição social como precursor de Fobia Social
Atualmente já temos suficientes evidências científicas para sugerir que a interação entre fatores causais de origem genético-biológica e fatores ambientais determinam o desenvolvimento de FS e ansiedade social (AS).
Os especialistas compartilham a opinião de que a timidez, especialmente a inibição social que a caracteriza, representa fatores temperamentais que predispõem ao desenvolvimento FS. Esses fatores podem ser reduzidos ou amplificados por fatores ambientais específicos, sistemas educacionais, experiências sociais e outros eventos negativos na vida tais como divórcio ou separação dos pais, conflitos familiares e abuso sexual durante a infância (Prior, Smart, Sanson and Oberklaid, 2000; Hofmann, Heinrichs and Moscovitch, 2004).
Frequentemente, um comportamento maternal de superproteção pode restringir na criança as oportunidades de confrontar situações produtoras de ansiedade, impedindo-a de adquirir autonomia adequada e habilidades sociais, levando a uma situação de maior dependência da figura dos pais. Vários estudos indicam que frequentemente as próprias mães de crianças tímidas tiveram a infância marcada pela timidez que, ao longo do tempo, se transformou em FS (Mais, 2003).
Plomin (1985) descobriu que o nível de timidez na criança é significativamente relacionado com as habilidades sociais da mãe. Alguns estudos retrospectivos mostram que adultos portadores de FS se lembram dos pais como pessoas com pouca interação social, ausentes, tendendo a dar grande importância ao julgamento dos outros a ponto de coibir os contatos dos filhos (Wood et al., 2003). Outros autores (Rubin e Mills, 1991; Rapee, 2001), no entanto, vêem os relacionamentos interpessoais como um processo circular, ressaltando a existência de uma influência recíproca entre pais e filhos em trocas interativas. Assim sendo, a criança tímida e introvertida despertará nos pais, especialmente se portadores de FS e ansiedade, um comportamento super-protetor, conduzindo à manutenção e aumento do afastamento social, promovendo modelos de comportamento e aprendizado (cognitivo) crônicos. O resultado seria a perpetuação de um processo interpessoal disfuncional que tem uma importância central na manutenção de uma condição de incapacidade adaptativa (Wood et al., 2003).
Estudos examinando a importância de interações precoces entre mães e filhos em relação à inibição social durante a infância, revelam certas peculiaridades como a falta de sincronização e troca recíproca de recompensas (prêmios). A natureza insatisfatória dessas interações provoca uma falta de interesse da criança pelos estímulos maternais e uma tendência das mães em estimular as crianças em excesso para obter as respostas desejadas. A criança, na maioria das vezes, é estimulada através de manifestações motoras como abraços e carícias e, menos frequentemente por expressões faciais como olhares e sorrisos, precisamente porque tendem a não olhar diretamente no rosto das mães se mostrando mais inclinados à vocalizações negativas como chorar e lamuriar. Esse comportamento “difícil” é frequentemente atribuído a fatores de risco de ordem biológica como complicações pré ou peri-natais. Prematuridade, anóxia neonatal e baixo peso foram observados em 2 de cada 3 crianças portadoras de Inibição Social (Gerhold et al., 2002).
Dentro do contexto familiar de crianças inibidas e socialmente fóbicas observa-se uma relação entre características específicas de funcionamento familiar e o desenvolvimento de inibição e FS. No caso de crianças inibidas os seguintes fatores sociais e familiares foram significativos: baixo nivel sócio-econômico, falta de um dos pais, condições ruins de trabalho e doenças crônicas (Gerhold et al., 2002). Esses achados nos levam à hipótese de que o desenvolvimento da inibição é de alguma forma desencadeado por experiências negativas sofridas também pelas figuras protetoras.
As peculiaridades da FS relacionadas ao sexo parecem estar relacionadas com problemas específicos dos pais e com experiências traumáticas do passado (Chartie , Walk e Stain, 2001). O surgimento desses transtornos em meninas parece estar, na maioria das vezes, associado à presença de uma relação conflituosa com a figura paterna ou ter sido vítima de abuso sexual, enquanto nos meninos, estaria acima de tudo relacionada à ausência de um dos pais ou a de um adulto capaz de prover apoio emocional (Chartier, Walker e Stein, 2001).
Magee (1999) sugere que o impacto do abuso sexual por um membro da família no desenvolvimento da FS é influenciado pelo senso de culpa e vergonha com os quais a vítima convive, sentimentos que tendem a ser generalizados e transportados para outros contextos que não o original. Alguns medos como o medo específico de ser atacado verbalmente ou ser criticado por outros pode evoluir e passar para diversas situações sociais, partindo precisamente de sentimentos de vergonha e culpa sofridos por pessoas que passaram experiências degradantes.
Outras experiências dramáticas como a morte de um dos pais ou separação exercem uma influência significante no surgimento da FS (Bandelow et al., 2004). Estudos sobre ligações afetivas revelam uma forte associação entre tipos específicos de relacionamento de insegurança como o ansioso ambivalente (Ainsworth et al., 1978) e o passivo-dependente com comportamentos de inibição (Renken et al., 1989).
Crianças que tiveram uma ligação afetiva inconsistente com os pais desenvolvem uma concepção negativa de si mesmos achando incapazes e não dignos de serem amados, por isso levando à procura de terceiros imprevisíveis e não confiáveis. Essa atitude em relação aos outros e a conseqüente falta de confiança em si próprio e nos outros, inicialmente tão somente relacionada à figura dos pais, pode tornar-se generalizada. Esta condição provoca dificuldades de relacionamento conduzindo a criança inibida a defender-se através de uma atitude de retraimento social (Rubin et al., 1995; Rapee, 2001).
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