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A criança e a Responsabilidade Social

Diga não ao desperdício: A criança como agente multiplicador

Mauro de Almeida Psicólogo e gestor em Responsabilidade Social Empresarial,
é Diretor da OP3 Projetos Sociais.

Quem disse que Responsabilidade Social é coisa pra marmanjo? Nada disso. É de pequeno que se torce o pepino e é de pequeno que se aprende a plantá-lo.

O adulto pode (e deve) ajudar na reconstrução do mundo, mas a criança será parte integrante dessa nova forma de se ver as coisas. Se assim for, nenhuma criança ficará para trás. Tenho absoluta certeza disso.

Considerando que o maior problema brasileiro em relação à fome não está na distribuição de renda, mas no desperdício de alimentos, muitas entidades têm trabalhado para o melhor aproveitamento de tudo que se planta e de tudo que as pessoas têm em casa.

Porém, a maioria dos projetos, quando efetivados, esbarra numa dificuldade significativa: a rejeição ao consumo de cascas, talos e folhas, principalmente por parte das crianças. As pesquisas demonstram que isso acontece porque a regra é trabalhar com adultos (porque são os responsáveis pela elaboração de receitas) normalmente mães, sem envolvimento direto das crianças. Ao aprender e reproduzir esses pratos em casa, as mães (e pais) sofrem com a negativa dos filhos em experimentar doces e salgados elaborados a partir dessas assim chamadas partes menos nobres dos alimentos naturais, que, além de promover a economia, colaboram em muito para uma alimentação rica em vitaminas e sais minerais.

Mas o que isso tem a ver com o nosso propósito neste Congresso?

O “Aprendendo na Prática” é um projeto de reeducação alimentar que prioriza essa situação e faz da criança o agente de mudança de hábitos de consumo, através de uma técnica simples e eficaz.

Motivada, a criança abraça a idéia e solicita a adesão imediata da família. A criança é a terra fértil da sociedade; cada semente plantada gera frutos, abundando em outras sementes que, espalhadas pelo vento agitado da infância, acabam semeando até as terras mais áridas, como a do executivo apressado ou da cozinheira inerte.

Essa afirmação se baseia em algumas características do comportamento infantil:

  1. O idealismo: embora todo ser humano seja adepto de causas solidárias, o tempo e a necessidade vão nos afastando desse princípio básico tão importante;
  2. A coragem: toda criança é “atirada” por natureza. Basta que acredite que aquilo que está sendo tratado é algo bom e proveitoso;
  3. O imediatismo: a criança sempre quer as coisas na hora; esperar pra quê?
  4. A falta de limites: uma vez iniciado um processo de ação, a criança caminha até onde puder, sem se preocupar em cometer exageros.
  5. A criatividade: a criança não precisa de muitos recursos materiais (tecnológicos, muito menos) para desenvolver seus planos de ação. Ela maneja ferramentas por conta própria;
  6. A cobrança: uma vez aceito o desafio proposto por uma criança, “ai daquele” que ousar não cumprir com o combinado.

O sentido que a criança atribui às coisas é diferente do adulto – a criança realmente acredita na mudança de uma situação em decorrência de um novo comportamento. Ela tem um compromisso de “fé”. Isso explica, em parte, a sua motivação e disposição para os projetos: ela enxerga um resultado que a falta de credulidade e o excesso de razão do adulto não permitem ver.

Uma frase de Giacomo Leopardi: “As crianças encontram tudo em nada. Os homens encontram nada em tudo”.

Dessa forma, é preciso trabalhar conteúdos de maneira a fazer com que os pequenos abracem a causa sem que sejam obrigados, mas direcionados, sem que sejam responsabilizados, mas envolvidos, sem que sejam parte do problema, mas da solução.

Estudo de Caso

Desenvolvido pela OP 3 Projetos Sociais para a Arno/Panex (marcas do Grupo SEB do Brasil), o projeto consiste em incentivar, por meio de ações em escolas públicas e privadas, o aproveitamento de partes dos alimentos que antes iam para o lixo, como cascas, folhas e talos. Por meio de uma revistinha com jogos e brincadeiras, as crianças preenchem um questionário a respeito dos hábitos alimentares de suas famílias. Com a pesquisa nas mãos, verificamos quais são as frutas e hortaliças mais consumidas na comunidade em questão e elaboramos um caderno de receitas que estimula o não desperdício desses alimentos. Centenas de milhares de crianças já participaram da atividade, através de uma parceria estabelecida com a Fundação para o Desenvolvimento da Educação (FDE) abrangendo todo o Estado de São Paulo.

A figura do (a) professor (a), como em tudo que envolva crianças, é crucial para que o projeto alcance seus objetivos, uma vez que somente os mestres são capazes de tornar realidade qualquer proposta criativa. O poder de um (a) professor (a) sobre seus alunos é algo que merece grande esforço de reflexão por parte de nossos dirigentes. Um (a) professor (a) motivado (a) é capaz de mudar um grupo de alunos.

Um grupo de professores (as) motivados (as) é capaz de mudar uma cidade.

Envolver as crianças, comprometê-las, é uma questão de entender que os pequenos são capazes, sim, de trabalhar temas sérios como a fome. Ao contrário do que se possam pensar, as crianças sentem-se valorizadas quando chamadas a participar de grandes projetos. É evidente que a linguagem a ser trabalhada requer cuidados, mas não que os temas devam ser evitados.

A criança conhece personagens como o Zé Abaixaki, o João Cenoia, a Tia Alfácia, a Laranjita, a Chiquita Banana e até a Bia Babatatatinha, a menina gaga da turma, que nos permite trabalhar inclusão e igualdade.

A Turma do Prática, como ficaram conhecidos os fantoches, é manipulada por funcionários voluntários da Arno, que se dedicam à atividade social, mesmo em horário de trabalho, um grande investimento feito pela empresa.

Quando recebe o Caderno de Receitas, a criança tende a pedir à mãe (e/ou pai) que faça “as delícias” (sic) que ali se encontram. Como é alta a probabilidade das famílias terem os alimentos à disposição (base da pesquisa) os pratos são preparados sem obstáculos maiores.

Como diz meu filho João Marcello Almeida em seu livro A Mais Avançada das Tecnologias, através do conhecimento, “a criança se sente segura para, passo a passo, criar, inventar, modificar, interferir, enfim, agir no mundo de forma significativa e nova".

Cada escola envolvida desenvolve ações internas e junto às famílias dos alunos e ao entorno, sempre com a bandeira do não desperdício.

Idéias sugestivas e diferentes surgem em todas as regiões do Estado. Da elaboração de uma receita de suco de cascas de abacaxi e degustação em sala de aula até uma passeata pelas ruas da cidade com faixas e cartazes, são mais de 300 boas práticas que podem ser vistas no site www.op3.com.br sem restrições de acesso.

Algumas dessas idéias merecem destaque:

  • a criação de uma comunidade “diga não ao desperdício” no Orkut, aproveitando o modismo da ferramenta;
  • da mesma forma, as pesquisas de receitas de aproveitamento total dos alimentos na Internet;
  • visita aos supermercados com questionamento do hábito de venda já sem folhas e talos, incentivando comerciantes a mudar atitude;
  • no mesmo caminho, distribuir receitinhas feitas pelos alunos nas feiras livres e sacolões, para que feirantes e consumidores não joguem fora as partes normalmente descartadas; - concurso de receitas entre mães nas escolas;
  • parcerias com outras instituições e projetos, como a Escola da Família, a Pastoral da Criança e a cartilha de Turma do Sítio do Fome Zero;
  • conscientização das merendeiras para introdução de receitas de não desperdício no cardápio escolar uma vez por semana; - visita a aterros sanitários locais para verificar o volume de lixo orgânico, partindo da informação de que o Brasil é campeão mundial em lixo dessa natureza;
  • indicador de desempenho: projeto com medição do lixo produzido na feira antes e depois das ações de conscientização, tanto junto aos feirantes, quanto junto aos consumidores;
  • envolvimento das mídias regionais em campanhas de não desperdício. Visita de alunos e professores aos jornalistas de TV, Rádio e Jornais da cidade.

A grande descoberta deste projeto, não está na utilização das partes menos nobres dos alimentos, nem nos resultados atingidos durante todo o tempo de sua execução. Ter a criança como parceiro confiável e agente multiplicador de idéias e práticas não é uma exclusividade do “Aprendendo na Prática”.

O que o projeto nos mostrou, de novo e consistente, foram 2 aspectos muito especiais:

  1. A criança, quando introduz um conceito no seio familiar, sente-se muito importante por ser ela a portadora de um conhecimento novo, descoberto e trazido à sua casa, conferindo-lhe legitimidade.
  2. A criança, mais do que multiplicadora por repetição, passa a ser um agente transformador, já que as receitas podem ser feitas por ela, juntamente com os pais, produzindo uma mudança significativa no aproveitamento dos alimentos e na economia doméstica.

Os indicadores de desempenho do projeto demonstram que, enquanto estimuladas, as crianças tendem a fomentar mudanças de hábitos, exigindo, tanto dos responsáveis pela merenda escolar, quanto de seus pais, que nada seja perdido.

No tocante à merenda, vale acrescentar que o desperdício que, segundo o Jornal da Tarde (junho/06) chega a 20% em todo o Estado, é reduzido nas escolas participantes a quase zero, resposta freqüentemente relatada por professores e gestores.

Os resultados apontam para uma melhor qualidade na alimentação, expressiva redução do lixo e economia doméstica. Nossos pequenos multiplicadores são, sim, a voz do presente que pode ecoar no futuro, desde que cresçam livres das esquisitices e manias dos adultos.

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